A Chave do Enigma
O começo — I
Antes de tudo, releva conhecer o individuo. Não é empenho muito fácil; mas tentemos.
Levanta-se logo a primeira dificuldade deste capitulo na averiguação da identidade:
Reflicta cada um consigo mesmo neste grave ponto: ¿a repetição de nome, a semelhança das feições, a conservação, com mais ou menos mudanças, da índole primitiva, dos gostos, e das relações ativas e passivas com as pessoas e coisas do mundo externo, bastarão para que, em boa filosofia, um homem qualquer se repute unidade consoante, e único indestrutível no meio da metamorfose universal? ¡Embaraçoso problema!
O espirito imaterial e immorredoiro quer, por instinto, por egoismo, por fé, acreditá-lo; mas o estudo da Natureza, e a própria experiencia quotidiana, desmentem em boa parte essa presunção.
O individuo não é só a alma; o corpo que a reveste, a serve, e tantas vezes a domina, é mais que sujeito a continuas e espantosas variações; renova-se incessantemente, perecendo e renascendo a cada instante; a sua carne de hoje era ainda ontem vegetais, ruminantes, aves, peixes, água nas fontes, gazes na atmosfera, calorico no sol, terra debaixo dos pés, e eletricidade sabe Deus por onde; congregaram-se essas miríadas de partículas… existiu; amanhã partirão, todas elas destacadas para novas combinações e destinos, sem que o espirito lhes haja sentido a fuga, porque outras partículas, accorridas do universo, terão vindo rendê-las sem estrondo nem abalo.
Antonio Feliciano de Castilho (autor) morreu em 1875; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1946.