Contos e Fantasias (Maria Amália Vaz de Carvalho, 1905)
Maria Amália Vaz de Carvalho (?–1921)
O começo — Uma historia verdadeira
Era uma fisionomia incaracteristica, apagada, tristíssima.
Não se podia dizer a idade que tinha, nem mesmo se tinha idade.
Tanto podia ter trinta ou quarenta como setenta anos.
Curvado pela idade ou pelos desgostos? Encanecido porque os anos tinham corrido por sobre a cabeça dele, ou porque lhe tinham pesado duplamente sobre os ombros debeis?
Quem o podia dizer?
Era uma organização acanhada e rachitica, podia mesmo chamar-se incompleta.
Para ele com certeza que a adolescência não tivera as suas madrugadas azuis tão gorgeadas e tão festivas, nem a virilidade tivera a fanfarra estridente dos seus clarins, a florescência escarlate dos seus rosaes voluptuosos.
Tinha sempre vivido debaixo de uma estranha pressão dolorosa.
Dependêra de todos primeiro porque era fraco e inerme, depois porque fora pobre, dependente, sem aquela áspera dignidade que os atrictos da vida tornam mais rude e que é a armadura moral que salvaguarda o homem nos duros combates sociais.
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