A Bolsa da Concubina
Virgílio Várzea (?–1941)
O começo
O AMOR É UMA ESCADA que tem uma extremidade na glória e outra no abismo, — disse-o Matias de Carvalho.
Vezes há que essa escada devendo resvalar na glória, resvala abruptamente no abismo.
E ai daqueles que se tem librado a ela.
O amor é uma torrente de circunstâncias anormais.
Quanto maior é o amor, maior deve ser o sacrifício.
O amor faz gigantes e faz anões, ilumina e entenebrece os espíritos nervosos e doentios.
É como o cáustico; cura mas deixa os sinais evidentes.
Daí as incompatibilidades, as duras idiossincrasias do amor.
Daí as monstruosidades e os abortos morais, os perigos e as aberrações sociais.
O amor, o amor que se consubstancia no dever, na harmonia, no bem-estar, no sossego de espírito, na probidade e na lisura, é o maior elemento higiênico da moral da família.
Para a felicidade doméstica, o agente que mais influi é o amor, mas não esse amor gasto que anda a suspirar pelos madrigais, pelas belas noites de luar, pelos suntuosos saraus de onde se sai com o estômago encharcado de maus vinhos e a consciência cambaleando, pelo efeito das luzes, das flores, das músicas e das pompas.
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