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Conventos

Júlia Lopes de Almeida (1862–1934)

Crônica e ensaio5 min de leitura4 páginas

O começo

A tarde agonizava em reflexos brancos de prata polida, que davam à superfície do mar um tom de aço, espelhento. Num banco do convés da barca, uma senhora afogada em lãs pretas, de luto, sussurrava queixas das filhas que a queriam trocar por um convento. Era um desabafo, entre as amigas, que todas se debruçavam para aquela angústia…

Pelos farrapos dos comentários percebi que as donzelas não levariam ao claustro contingente que o exalçasse… Uma delas faria versos místicos, a outra rezaria ladainhas, sem que das suas genuflexões ou dos seus arroubos viesse benefício ao mundo.

A mãe não sabia explicar aquele fervor súbito. Supunha que a mais velha, poetisa, procurasse na religião os ideais que não via realizados na terra; mas a outra? Debatia-se ante o enigma da outra.

Optaram as amigas por uma paixão. Algum amor mal correspondido…

Pobre criança, pensava eu de mim para mim, o véu de freira não tem por certo a magia que ela espera… Se o mal de que ela sofre é esse que dizem, levá-lo-á consigo, que para a fatalidade do amor não há amuletos nem cilícios que valham. O convento excitará no principio a sua fantasia, vinculará a sua saudade, sem lhe trazer a pacificação, a vida saborosa, que é o preparo do Paraíso.

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