A Reforma das Coristas
João do Rio (?–1921)
O começo
Naturalmente nós todos começamos a rir. A pequena tinha jeito para a coisa. Cada gesto seu era um modelo de topete e de cinismo, deste cinismo de bombonière em montra de confeiteiro, um cinismo que se oferecia, que se ofertava, que estava ali. No meio das outras, os cabelos louros repuxados para trás como a crina de uma poldra, o dorso cilhado pelas barbatanas do colete que lhe comiam o ventre, pondo em relevo a linha das ancas, o busto empinado, as mãos adejantes, a garota dançava como ninguém a vertigem do cake-walk. Fora Cinira Polônio, a estrela coruscante, que com seu faro de teatro descobrira na linha de vinte coristas aquele diabo.
- Olhem - fazia ela - por que não dançam vocês com a pequena?
Imediatamente, todos os olhos convergiram para o bichinho, minutos antes anônimo. O maestro parou: "- Homem, realmente, estou vendo isso mesmo!" O empresário coçou a cabeça, e todo o teatro, naquela hora de ensaio, em que a crua violência do sol do terraço tomava um esmorecido ar cerúleo para os lados do palco, esperou com um sorriso pregado na face. As coristas, algumas conservavam as mãos no ar e eram uma galeria de caras empapuçadas ainda do sono da manhã, mas bem moças, bem fortes. Cinira Polônio fez um gesto.
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