A Casa das Almas
João do Rio (?–1921)
O começo
Os negros "cambindas" do Rio guardam com terror a história de um branco que lhes apareceu certa vez em pleno sertão africano. Quando o rei deu por ele, que por ali vinha calmo, com as suas barbas de sol, precipitou-se mais a tribo em atitude feroz. O branco tirou da cinta um pequeno feitiço de metal e prostrou morto, golfando sangue, o babaláo.
- Exu! Exu! ganiu a tribo, recuando de chofre.
- Quem és tu, santo que eu não conheço? perguntou trêmulo o poderoso rei.
- Sou o que pode tudo, bradou o branco. Vê.
Estendeu a mão de novo e matou outros negros.
- Só te deixarei em paz se me mostrares todos os teus feitiços.
Sua Majestade, apavorada, levou-o à tenda real e durante o dia e durante a noite, sem parar, lhe deu tudo quanto sabia.
- Perdôo-te, disse o branco. Adeus! Levo para o mistério a rainha.
Aconchegou o feitiço, que parecia egum, o deus da guerra, no seio da preferida, deixou-a cair, e partiu devagar pela estrada a fora…
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.