
A Alma Encantadora das Ruas
João do Rio (?–1921)
O começo — A Rua
Eu amo a rua. Essentimento de natureza toda intima não vos seria revelado por mim si não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a policia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. E' este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia — o amor, o ódio, o egoismo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as…
A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:
Je suís la rue, femme êternellement verte, / Je nai jamais trouvé dautre carrière ouverte / Sinon dêtre la rue, et, de tout temps, depuis / Que ce pénible monde est monde, je la suis…
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