A Morgadinha dos Canaviais (Crônica da Aldeia)
Júlio Dinis (1839–1871)
Um homem da cidade vai para a aldeia curar o tédio, e a aldeia tem opinião própria.
Por que ler
Júlio Dinis escreveu em 1868 o romance mais gentil desta lista: sem vilão, sem tragédia, com gente comum tentando se entender. É longo e é doce, e funciona bem para quem quer literatura do século XIX sem sofrimento.
Para observar
Repare como o livro trata o interior — nem paraíso, nem atraso. Era raro na época, e continua raro.
O começo — I
Ao cair de uma tarde de dezembro, de sincero e genuíno dezembro, chuvoso, frio, açoutado do sul e sem contrafeitos sorrisos de primavera, subiam dois viandantes a encosta de um monte por a estreita e sinuosa vereda, que pretenciosamente gozava das honras de estrada, à falta de competidora, em que melhor coubessem.
Era nos extremos do Minho e onde esta risonha e feracissima província começa já a resentir-se, senão ainda nos vales e planuras, nos visos dos outeiros pelo menos, da vizinhança de sua irmã, a alpestre e severa Traz-os-Montes.
O sítio, naquele ponto, tinha o aspecto solitário, melancólico, e, nessa tarde, quase sinistro. Dali a qualquer povoação importante, e com nome em carta corographica, estendiam-se milhas de pouco transitaveis caminhos. Vestígios de existência humana raro se encontravam. Só de longe em longe, a choça do pegureiro ou a cabana do rachador, mas estas tão ermas e desamparadas, que mais entristeciam do que a absoluta solidão.
Júlio Dinis (autor) morreu em 1871; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1942.