Novelas Extraordinárias
Edgar Allan Poe (?–1849)
O começo — O corvo
Uma vez, à hora lúgubre da meia-noite, eu meditava, fraco, fatigado, quase adormecido, sobre muitos volumes interessantes e valiosos de uma doutrina esquecida. De repente, ouvi um ligeiro ruido, como de alguém batendo, ao de leve, à porta do meu quarto. «É alguma visita», murmurei eu, e nada mais.
Estávamos em Dezembro, lembro-me distintamente. As achas meio queimadas desenhavam no solo o reflexo da sua agonia.
Eu desejava ardentemente a manha! Em vão pedia aos livros o esquecimento das minhas mágoas… Pensava sempre nela, na minha Leonor perdida, na mulher rara e deslumbrante que os anjos chamam ainda Leonor e que os homens não chamarão mais!
O vago sussurro dos reposteiros ondulantes penetrava-me de um terror fantástico e melancólico. Para acalmar a agitação que me assustava, levantei-me, repetindo: «É alguém que bate à porta, alguma visita tardia, que solicita a entrada do meu quarto; sim, é isso, e nada mais.» Então senti o espirito um pouco fortalecido, e sem hesitar mais tempo:
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.