Por Quê ?
Júlia Lopes de Almeida (1862–1934)
O começo
Matou-se, por quê? O amor, esse eterno revolucionário, encheu-lhe o coração com o seu amargo licor de dúvidas e de desenganos?
Não…
A miséria bateu-lhe à porta, mostrando-lhe os membros nus, o colo murcho e sugado, as roupas em farrapos imundos e o rosto desconsolado? Foi essa visão que a fez varar o corpo com uma bala de garrucha?
Não…
Teve ciúmes do esposo, medo de que a sua beleza fosse suplantada pela de outra mulher, e que o seu espírito e a sua bondade, mais o seu amor, não bastassem para prender toda a atenção daquele a quem se dedicava de corpo e alma?
Não.
Perderia algum ente amado, um filho, por exemplo, em quem depositasse todas as floridas esperanças de melhor futuro, e de quem as saudades fossem tamanhas que lhe tornassem insuportável a existência?
Não.
Teria sido atingida por uma dessas moléstias incuráveis e nauseantes, que todos os extremos justificam?
Não.
Adultério?
Não.
Loucura?
Não.
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