O Renegado a Antônio Rodrigues Sampaio Carta ao Velho Pamphletario sobre a Perseguição da Imprensa
António Duarte Gomes Leal (1848–?)
O começo — I
Eis-me em frente de ti, velho urso na caverna― / Eis-me em frente de ti erguendo uma lanterna, / lanterna que acendi na grande escuridão / sobre a plebe açoutada, erguendo a minha mão, / lanterna que acendi nesta era ensanguentada, / lanterna que acendi, como em sinistra estrada / por causa dos ladrões perdido viajante. / Eis-me em frente de ti, eis-me de ti diante / cheio dódio, rancor, com asco, sem respeito, / perguntando-te, ó Velho―Onde está o Direito? / O que fizeste ao Povo, à Consciencia, ao Brio? / Onde está o Pudor, rude ancião sombrio? / Quem és? Quem és? Quem és?… velho cheio de fel. / Onde está ó Cain o teu irmão Abel?
Quem és? Quem és?… Ó gloria, ó nome hoje avitado? / Tu foste a Alma do Povo―hoje és um renegado. / [8] Eu sou a voz do humilde e desses maltrapilhos, / desses rotos e nus a quem mandaes os filhos / às palhas da enxovia em vez da luz da escola. / Eu sou a voz de baixo, eu sou o mar que rola / toda uma orquestra dais, um mundo de lamentos / maior que a voz de Deus, e a voz dos grandes ventos, / Sou a voz que maldiz, o pranto que suspira. / Trago na minha mão a lampada da Ira.
António Duarte Gomes Leal (autor) morreu em 1921; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1992.