
A Fome de Camões
António Duarte Gomes Leal (1848–?)
O começo — CANTO PRIMEIRO · TRAGEDIA DA RUA
Quando no mundo o Genio abandonado expira à fome e ao frio, indignamente, um livido remorso ensanguentado sacode o mundo tenebrosamente. Como o arrepio de um terror sagrado, alguma cousa grita intimamente: como uma voz terrível que suspira nas cordas vingativas de uma Lyra. E essa Lyra é só feita dameaças. Essa Lyra é só feita de vinganças. Essa Lyra só fala de desgraças, dantigos crimes, de cruéis lembranças. Essa Lyra espedaça e quebra as taças, cala os festins, e faz parar as danças, e essa Lyra ai! da trágica inocência é a Lyra terrível da Consciencia. E a Lyra diz: O que fizeste, ó mundo! das grandes almas únicas, sagradas, das grandes frontes de um sonhar profundo que eram as frontes…
António Duarte Gomes Leal (autor) morreu em 1921; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1992.