Quiromancia
Júlia Lopes de Almeida (1862–1934)
O começo
Uma bela tarde, a minha amiga Rafaela entrou arrebatadamente na minha saleta de trabalho e deixou-se cair num tamborete, a meus pés.
- Que tens? perguntei-lhe assustada, percebendo-lhe o terror no rosto, ordinariamente repousado.
Por única resposta ela estendeu-me a mão espaldada e nua, e arregalou para mim os seus olhos claros, cor de violeta.
- Não percebo o teu gesto… roubaram-te o anel que ele te deu?… Não abranges a oitava no piano e desistes de o estudar? Terás reumatismo nos dedos? Bem; se não queres responder, vai-te embora, mas arranja primeiro o chapéu, que está torto, e modifica esse ar de quem foge de alguém que o persegue na rua…
- Ninguém me seguiu na rua… o anel que ele me deu está na outra mão…
E, como orvalho em violetas, borbulharam lágrimas nos olhos da pobre Rafaela.
- Se pudesses explicar-te…
- Escuta venho da casa da Noêmia Saldanha; havia lá gente de fora, uns homens de quem já não me lembro do nome e um certo rapaz que lia nas mãos das senhoras a buena dicha, ou que melhor nome tenha. Quando eu entrei, a Saldanha disse alto, com o seus guinchinhos de macaca: "Olhem quem vem aí!" e puxou-me com violência para a roda, que se abriu muito amável para me receber. O tal rapaz continuou nos seus prognósticos, que faziam rir a todos. Lia na mão da Sinhá Mendes coisas muito bonitas: que ela se haveria de casar com um moço que a adora… que há de ir à Europa, que há de ter três filhos gordos. mansos, fortes e bonitos; que herdará uma grande fortuna de um parente afastado de quem não…
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