Em Guarda
Júlia Lopes de Almeida (1862–1934)
O começo
Quando, ao cair da noite, a mãe senta nos joelhos o filho amado e o interroga sobre os feitos do seu dia, para censurá-lo ou aplaudi-lo, como é feliz quando tem, para fortalecer a sua consciência, a contar-lhe um fato heroico ou um sentimento sublime, documentados por uma simples notícia de jornal ou uma audição de acaso! A sua alma profética adivinha que coisa alguma comoverá mais profunda e utilmente o seu rapazinho do que o saber que no seu tempo, na sua cidade mesmo, à hora em que ele brincava com o seu pião, ou escrevia os seus temas, ou dormia regaladamente o seu sono, havia um homem da mesma raça, da mesma língua, seu semelhante em tudo, que arriscava a sua vida para salvar a vida de…
São as melhores páginas para a alma, estas páginas vivas, ainda quentes do calor do sangue, ou empapadas pela inundação das lágrimas. Percebendo isso, não há mãe que se não comova, quando, relatando-as ao filho, vê nas transparentes pupilas dele despontar e dilatar-se a flor dourada da generosidade e do entusiasmo precoce.
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