A Profissão de Jacques Pedreira
João do Rio (?–1921)
O começo — I
— Mais um bolo?
— Obrigada. Ouvimos o Chagas. Está famoso.
— Oh! Dando apenas as últimas alcunhas do Lírico…
— Aposto que não sabe…
— A do presidente ou a do cardeal?
A Sr.ª de Melo e Sousa parou, olhando a sala. Seria inconveniente perguntar a alcunha de alguma pessoa presente. A Sra. de Melo e Sousa era muito bem-educada desde criança.
— Por exemplo, a do Florimundo - atalhou a menina Laura Gomes, que não era bem-educada.
— Ah! essa é o puzzle - fez o Chagas olhando o sujeito ao fundo.
— Por quê?
— Ora! Porque esgota a paciência dos credores e é mudo como um peixe.
As senhoras fingiram rir. As primeiras alcunhas tinham sido mais felizes. Era, naquele inverno, a recepção inicial da Sra. Gomes Pedreira.
Mme. Gomes Pedreira, Malvina para os íntimos, com os seus cinquenta anos discretos posto que adiposos, afadigava-se em recepções. Com dois filhos apenas, Jacques, cujo curso de Direito se completara dias antes, e Gastão, ainda num equiparado de padres, distante, era ela quem dirigia o serviço, preparava os bolos nas pratarias, revolucionava a pouca vontade evidente dos criados. Podia ter uma governante. Era, porém, uma questão de hábito. A força do hábito obrigava-a. Todos os anos invariavelmente em Petrópolis, decidia não abrir mais a sua sala do Rio em dias certos. Em seguida, continuava a fazer o que fizera no ano anterior. Continuar é ainda uma das ações mais fáceis deste mundo, que a…
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