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Traços de um Roteiro

Rui Barbosa (?–1923)

Direito11 min de leitura9 páginas

O começo

Não sabemos se, neste confuso turbilhão da imprensa, se poderia estrear um jornal de vontade e aspirações assentadas, sem dizer a que vem, que ideias traz, ou se seria possível dizê-lo, sem resvalar, mais ou menos em cheio, no uso dos programas. Estes representam, especialmente em assuntos políticos, a mais desacreditada tradição, que se conhece, e, portanto, a menos propícia à esperança dos que pretenderem agoirar bem um cometimento sincero. A época, que atravessamos, é sobre todas fértil, a este respeito, em desenganos. Dantes a esfera desses compromissos era mais modesta; porque a ação dos homens, que ocupavam, ou disputavam o poder, confinava, de todos os lados, com as raias traçadas…

Em 15 de novembro caíram as barreiras, que limitavam esse horizonte. Todos os sonhos e todas as pretensões tinham ante os olhos o espaço indefinido, por onde mergulhar a vista. Os programas rebentaram em frondescência agigantada e basta, como florestas encantadas, de imensas perspectivas, povoadas de grandes pensamentos, de resoluções heroicas. Tanto maior a ruinaria moral, deixada nos espíritos pelo cair sucessivo e fragoroso de tantas ilusões. A república não era um programa, o mais ridente, o mais bem auspiciado, o mais inevitável dos programas? E quem ousará dizer que a realidade se pareça com a promessa? Não era um programa completo, logicamente entretecido, solidamente estruturado,…

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