O Espiritismo entre os Sinceros
João do Rio (?–1921)
O começo
O marechal Ewerton Quadros esperava um bonde para a cidade, quando um bonde passou inteiramente vazio.
- Por que não toma este? - perguntaram-lhe.
O marechal mergulhou mais a face adunca nas barbas matusalêmicas:
- Não é possível. Está cheio de espíritos maus! - e, como aparecesse outro inteiramente cheio, agarrou-se ao balaústre e veio de pé até à cidade.
Desde que se deixa a traficância do baixo espiritismo, que se conversa nas rodas intelectuais cultivadas, esse estado alucinante torna-se normal.
Ao subirmos as escadas da Federação, o meu amigo ia dizendo.
There are more things in heaven and earth, Horatio, There are more dreams in your philosophy.
Esses melancólicos versos temerosos, do mundo invisível, resumem o nosso estado mental.
Muita coisa há no mundo de que não cuida a nossa vá filosofia, muita coisa há neste mundo invisível…
Já não se conta o número de espíritos ortodoxos, conta-se a atração dos nossos cérebros mais lúcidos pela ciência da revelação. A Marinha, o Exército, a advocacia, a medicina, o professorado, o grande mundo, a imprensa, o comércio têm milhares de espíritas. Há homens que não fazem mistério da sua crença. Os generais Girard e Piragibe, o major Ivo do Prado, o almirante Manhães Barreto, Quintino Bocaiúva, Eduardo Salamonde, os Drs. Geminiano Brasil, Celso dos Reis, Monte Godinho, Alberto Coelho, Maia Barreto, Oliveira Menezes, Alfredo Alexander proclamam a pureza da sua fé. A Federação tem 800 sócios e ainda o ano passado expediu 48 mil receitas.
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