Última Noite
João do Rio (?–1921)
O começo
— Perdeste?
— Não, ganhei por treze. Veja você a cábula!
E Armando recebia do parceiro mil réis pela partida de bilhar. Para fazer semelhante aposta fora preciso a boa vontade do Jeremias, o principal caixeiro, que emprestara os dez tostões e durante toda a partida levara a peruar, grasnando. «Anda com isso, homem. Pois ainda não ganhaste? Olha que se perdes…». Armando suspirou, bateu com o taco no soalho.
— Vamos outra, parceiro? silvou o contendor, um sujeito lívido, de olhar desconfiado.
— Não posso. Tenho onde estar às sete.
— Quem? Você? Qual! O que você tem é medo. Um pixote com uma sorte maluca.
— Ah! filho, quem dá a sorte é Deus.
Mas o Jeremias vinha arrastando as chinelas, em mangas de camisa. E, apanhando as bolas no pano sujo de giz, a apagar um dos bicos de gás, resmungou tirânico:
— Deixa-o lá. Não lhe dês conversas. O dianho perde e ainda se põe com luxos!
Mesmo ali, entregou-lhe a nota do empréstimo, piscou o olho para outro caixeiro, um camaradão esse, foi até à cigarreria receber fiado um maço dos de carteirinha e uma caixa de fósforos. Acendeu um, vagou um pouco pela atmosfera deletéria do botequim, repleto de cambistas, de vendedores de senhas, de gente que não tinha o que fazer ao lado de uns tipos de torrinha, que trabalhavam o dia para fazer da claque à noite, olhou-se um instante no espelho. Estava pálido, com olheiras, a barba por fazer e o seu colarinho, emprestado, havia oito dias que lhe apertava o pescoço. Sentiu uma tonteira. Fome, de certo. Não comera desde a véspera, e o dia anterior passara-o com uma media e meio pão com…
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