Os Feitiços de Sanin
João do Rio (?–1921)
O começo
Pois seja! disse Antônio, tomando coragem. V. S. pode ir, mas não cuspa, não fume e não coma nessa casa. Eu não vou.
- Acompanhas-me até a porta?
- Até à esquina. Ficarei de alcatéia. Sanin e Ojô são capazes de me acabar com a vida.
A vida de Antônio é uma vida, sob todos os títulos, preciosa, e naquele momento ainda o era mais, porque a sustentava eu. Refleti e concordei.
- Está direito, ficas à esquina.
Chovia a cântaros. Antônio, sem guarda-chuvas, metido num capote que lhe ia até aos pés, acendia constantemente um charuto, que apagava.
- Mas, que é esse Sanin, afinal?
- Um feiticeiro danado!
- Mas babaloxá, babalaô, traficante?.
- Babalaô, não senhor. Para ser babalaô é preciso muita coisa. Só de noviciado, leva-se muito tempo, anos a fio, e a cerimônia é dificílima. Quando um iniciado quer ser babalaô, tem que levar ao babalaô que o sagra, dois cabritos pretos, duas galinhas de Angola, duas galinhas da terra, dois patos, dois pombos, dois bagres, duas preás, um quilo de limo, um ori, um pedaço de ossum, um pedaço de giz, dois gansos, dois galos, uma esteira, dois caramujos e uma porção de penas de papagaio encarnadas.
Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.