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Os Pobres Precedido de uma Carta-Prefacio de Guerra Junqueiro

Raul Brandão (1867–1930)

RomanceContos3 h 20 de leitura175 páginas

O começo — CARTA--PREFACIO

O seu livro é a historia patetica de uma alma. Qual? A do Gebo, a de Luiza, a de Sophia, a da Mouca, a dos Pobres enfim? Não. A sua. Historias diversas, que se resumem numa historia única: a da sua alma, transitando almas, a da sua vida, percorrendo vidas. Autobiografia espiritual, dilacerada e furiosa, demoniaca e santa, blasfemadora e divina. Confissão verdadeira, plena, absoluta de um organismo que sente a musica misteriosa do universo, de um coração que repercute a dor eterna da natureza, mas que só ao cabo de oscilações, duvidas e desanimos, coordena a idealidade do ser com as aparências do ser, o espirito com as formas, o Deus,--amor e beatitude, com a matéria,--crime e sofrimento.

Não vejo diante de mim um poema estéril, obra dos sentidos, da imaginação e da volúpia. Vejo um ato profundo, [VI] espontâneo, dimensidade religiosa. O homem que se confessa abala-me e deslumbra-me. Não a confissão mentirosa, a confissão vulgar, da boca que tem dentes, para o ouvido que tem sombras. Não a confissão-analise, a confissão dos críticos, rol de inteligencia, catálogo de ideias. Mas a esplêndida confissão das almas vertiginosas, desagregando-se, transidas de eternidade e de mistério. Como o fogo devorador dissocia o rochedo, há lavaredas ignotas que dissociam as almas. E, se tais almas se desdobram, a natureza denuncia-se. O homem é um resumo ideal da natureza. Andou o infinito,…

Raul Brandão (autor) morreu em 1930; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2001.

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