
Húmus
Raul Brandão (1867–1930)
O começo — A VILLA
Ouço sempre o mesmo ruido de morte que devagar roe e persiste…
Uma vila encardida—ruas desertas—pátios de lages soerguidas pelo único esforço da erva—o castelo—restos intactos de muralha que não têm serventia: uma escada encravada nos alveolos das paredes não conduz a nenhures. Só uma figueira brava conseguiu meter-se nos interstícios das pedras e delas extrae suco e vida. A torre—a porta da Sé com os santos nos seus nichos—a praça com arvores rachiticas e um coreto de zinco. Sobre isto um tom denegrido e uniforme: a umidade entranhou-se na pedra, o sol entranhou-se na umidade. Nos corredores as aranhas tecem imutaveis teias de silencio e tédio e uma cinza invisível, manias, regras, hábitos, vai lentamente soterrando tudo. Vi não sei onde, num jardim…
Raul Brandão (autor) morreu em 1930; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2001.