
Memórias
Raul Brandão (1867–1930)
O começo — PREFACIO
Janeiro de 1918.
Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho poído. Não me habituo: não posso ver uma arvore sem espanto, e acabo desconhecendo a vida e titubeando como comecei a vida. Ignoro tudo, acho tudo esplendido, até as coisas vulgares: extraio ternura duma pedra. Não sei—nem me importo—se creio na imortalidade da alma, mas do fundo do meu ser agradeço a Deus ter-me deixado assistir um momento a este espetáculo desabalado da vida. Isso me basta. Isso [10] me enche: levo-o para a cova, para remoer durante séculos e séculos, até ao juízo final. Nunca fui…
Raul Brandão (autor) morreu em 1930; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 2001.