
Fábulas—Folhas Caídas
João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett, Visconde de Almeida Garrett (1799–?)
O começo — NOTAS DE RODAPÉ:
[1] Em Angra, na ilha Terceira, capital dos Açores.
Senti sempre que a língua portuguesa era para todo o gênero de composições. E o rebelar-se ela em algumas pareceu-me que era mais inhabilidade de quem a conduzia do que defeito próprio seu. Por honra dela, mais que por vaidade minha, tentei compor em tam desvairados assuntos e gêneros como tenho feito. Hoje estou crente e firme convencido de que a tudo serve, a todo estilo se presta. Nem me persuadi mais disso por alguma coisa em que saí bem de meus insaios, do que pelas muitas em que falhei.
A singeleza de seu dizer, uma certa malicia popular e mordente de sua inocência saloia faz o dialeto português eminentemente próprio para o apólogo e para o conto.
Está pouco trabalhado o gênero entre nós em verso. Mas as fábulas dos animais, contadas em prosa pelas gentes do campo, têm tanta graça de estilo como as de Esopo e de Pilpay; e as narrativas do Decameron popular em que sempre figura o frade, a mulher do çapateiro, o marido logrado, o amante umas vezes bem sucedido em seus artifícios, outras colhido neles próprios e punido de sua audácia, não têm que invejar a Lafontaine ou ao licencioso italiano que fez as delicias de nossos gaiatos avós da renascença.
João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett, Visconde de Almeida Garrett (autor) morreu em 1854; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1925.