
A Cidade do Vicio
Fialho de Almeida (1857–1911)
O começo — SYMPHONIA DE ABERTURA
Insuportável, em Lisboa—o termômetro subindo sem atender a súplicas, subindo e putrefazendo tudo, os despojos subterrâneos e a frescura das mulheres, a carne de venda a retalho e a carne de aluguer, os artigos dos jornais diários e os artigos alimenticios. Em Lisboa transpira-se muito, pela pele e pelos criados. E às vezes, sob o influxo de uma hora de sol ou publicidade, qualquer pessoa se arrisca a ficar com a roupa alagada, e com a reputação em fanicos.
No verão, semelhante fenômeno exagera-se com violências equatoriaes; nem gelados nem discrição, logram atenuar-lhe os ímpetos—é sofrer ou partir. Eu parti.
Não imaginam que simplicidade holandesa de 10 toilette e que frescura de linhos, expendidas em vestons sem forro e pantalonas sem feitio!… Botões de madrepérola do diâmetro de relógios, altas polainas atando na perna por correias em cruz, o cinturão de coiro com cabaça para água, chapéu tyrolez e bordão ferrado, tendo a mochila dependurada na ponta. Sobre isto, excelente saúde, pouco dinheiro, muita alegria e nenhum peso de consciência. Magnifico ser novo e saber desprezar os tolos, pois não? Nestas digressões de andarilho só me entristece não levar alguém ao lado.
Fialho de Almeida (autor) morreu em 1911; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1982.