Tiresias
Eugénio de Castro (?–1944)
O começo
Sylvio, cabreiro moço e namorado, Um pifano talhava, distraído. Quando viu um pastor a si chegado.
Era um velhinho magro e combalido. Seus cabelos, a idade os prateara. Dos seus olhos a luz tinha fugido.
Os abismos receando, com uma vara
Tacteava o solo, e tão direito ia
Que dir-se-ía que o pau olhos creára...
Digiti
SYLVIO
Onde haverá metal ou penha fria Que não se compadeça e prantos sue , Por quem, triste, não vê a luz do dia?
TIRESIAS
Por tua voz que tão macia flue,
Sinto que és novo entre os adolescentes
E, como tal, ingénuo como eu fui.
Enganado pastor, não me lamentes; Só se deve chorar quando se veja Desgraça que mereça prantos quentes.
Que o teu espirito allumiado seja
G)mo o meu! Por me veres velho e cego
Não me volvas piedade mas inveja.
Ouve-me tu, cabreiro, com sossego. Minhas palavras na tua alma grava Que ao teu tempo darás um bom emprego.
Digiti
Quando ApoUo na terra pastoreava, Vista tive nos olhos, mas sem gosto. Que os olhos livres fazem a alma escrava.
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