
Marília de Dirceo
O começo — LYRA I.
Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro, / Que viva de guardar alheio gado, / De tosco trato, de expressões grosseiro, / Dos frios gelos, e dos sóes queimado. / Tenho próprio casal, e nele assisto; / Dá-me vinho, legume, fruta, azeite, / Das brancas ovelhinas tiro o leite, / E mais as finas lãs, de que me visto. / Graças, Marilia bela, / Graças à minha Estrella!
Eu vi o meu semblante numa fonte, / Dos anos inda não está cortado: / Os Pastores, que habitam este monte, / Respeitão o poder do meu cajado. / Com tal destreza toco a sanfoninha, / Que inveja até me tem o próprio Alceste: / Ao som dela concerto a voz celeste; / Nem canto letra que não seja minha. / Graças, Marilia bela, / Graças à minha Estrella!
Mas tendo tantos dotes da ventura, / Só apreço lhes dou, gentil Pastora, / Depois que o teu afeto me segura, / Que queres do que tenho ser Senhora. / He bom, minha Marilia, he bom ser dono / De hum rebanho, que cubra monte, e prado / Porém, gentil Pastora, o teu agrado / Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] trono. / Graças, Marilia bela, / Graças à minha Estrella!
Tomás António Gonzaga (autor) morreu em 1810; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1881.