Livros › Tomás Antônio Gonzaga › Cartas Chilenas

Capa de Cartas Chilenas

Cartas Chilenas

Tomás Antônio Gonzaga

Poesia2 h de leitura108 páginas

O começo — I

O pegajoso humor, que o sono ajunta.

Critilo, o teu Critilo é quem te chama;

Ergue a cabeça da engomada fronha

Acorda, se ouvir queres coisas raras.

"Que coisas, (tu dirás), que coisas podes

Contar que valham tanto, quanto vale

Dormir a noite fria em mole cama,

Quando salta a saraiva nos telhados

E quando o sudoeste e outros ventos

Movem dos troncos os frondosos ramos?"

É doce esse descanso, não te nego.

Também, prezado amigo, também gosto

De estar amadornado, mal ouvindo

Das águas despenhadas brando estrondo,

E vendo, ao mesmo tempo, as vãs quimeras,

Que então me pintam os ligeiros sonhos.

Mas, Doroteu, não sintas que te acorde;

Não falta tempo em que do sono gozes:

Então verás leões com pés de pato,

Verás voarem tigres e camelos,

Verás parirem homens e nadarem

Os roliços penedos sobre as ondas.

Porém que têm que ver estes delírios

Co'os sucessos reais, que vou contar-te?

Acorda, Doroteu, acorda, acorda;

Critilo, o teu Critilo é quem te chama.

Texto do Wikisource em português, que só hospeda obra livre: domínio público ou licença livre (CC BY-SA 3.0). A ficha aponta de volta para a página de origem, que é a atribuição que a licença pede.

Mais de Tomás Antônio Gonzaga