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A Abnegação

Francisco Gomes de Amorim (1827–1891)

3 h de leitura158 páginas

O começo

Meu querido Eirado. — Há trinta e cinco anos que o sr. Manuel Corval, professor de instrução primária na aldeia de Cadi-lhe, levantava sobre as nossas cabeças infantis a vara de sua justiça, que era uma enorme cana com que ele pretendia introduzir-nos a aritmética no cérebro. O nosso mestre fora oficial de um dos exércitos, que então andavam em luta fratercida na nossa terra; tendo perdido uma perna em combate, a pátria forneceu-lhe outra de pau, descontou-ll'a no prét, e mandou-o embora como incapaz de todo o serviço. Não sei se a ingratidão do seu partido, se a recordação de lhe terem vendido a perna de pau, em remuneração da que lhe apanharam de carne e osso, atuava constantemente no seu…

é que ele parecia-me sempre de horrível mau humor, e eu preferia ficar no caminho a ir aturar-lhe a bílis* Â distancia da minha aldeia à de Cadilhe, que será, talvez, de uns dois quilômetros, permitia-me refletir maduramente sobre os inconvenientes de não saber a lição, e de ir receber, por paga da minha ignorância, uma dúzia de palmar toadas, afora os carolos, que o mestre nos dava com a sua comprida cana a titulo de emolumentos» Pelo caminho havia si tios encantadores para quem fosse poeta: campos extensos e formosíssimos; rios e fontes d& águas cristalinas ; arvoredos frondentee, e valados de silvas, que se cobriam de amoras deliciosas* Eu não era poeta; mas já aos seis anos gostava…

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