Poesias Póstumas do Dr. Aureliano José Lessa
O começo — A Creação
Quando tudo era Deus, quando só Elle / Pejava o horror do espaço; / Deus disse:—é bom que surja o Universo, / Recuemos um passo.—
Depois co’a destra contrahindo o vácuo / Informe, e tenebroso, / Deixou cair o Universo inteiro / No espaço luminoso:
O silencio expandiu-se; era um sussurro / De sublime harmonia; / Hymno da vida, porque o sol girava / O primitivo dia.
Um chuveiro de mundos despenhou-se / Pelos desertos ares, / Como a saraiva, ou como os grãos de areia / Lá no fundo dos mares.
Rodava a terra verde, e a lua pálida, / Ia a noite após elas, / Mas caiu sobre as trevas, que fugiam, / Uma chuva de estrelas.
Os cometas correram desgrenhados, / Quaes profugos do inferno, / Levando aos astros dos confins da esfera / Os decretos do Eterno.
Do seu leito de abismos o oceano / Tenta em vão levantar-se; / Vem tombando, mugindo, e espumando / Co’as terras abraçar-se.
Abre o condôr as azas sobre navens, / Leviathan os mares; / E os jubados lesões, bramindo atroam / Os ecos dos palmares.
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