O Sol (Aureliano Lessa)
O começo
Ele é o rei da luz, entronizado / Na cúpula dos céus: / Talvez anjo revel incendiado / Pelo sopro de Deus.
No palácio do tempo ele calcula / Do movimento a idade; / Fiel ministro os séculos açula / Ao mar da eternidade.
Povos e mundos a seus pés baqueiam / Do tempo na voragem; / Mas seus louros cabelos não branqueiam, / São do infinito a imagem.
Que olho de homem jamais fitar pudera / essa fronte de Rei, / Se até seus mandos só de longe impera / Dos cometas a grei?
Astro, tu és a imagem da virtude: / Tranquila na desgraça, / Que espanca as trevas do caminho rude / Por onde o justo passa.
Em vão sacode o mar a espumea clina / Para manchar-te, ó Sol; / Em vão peneira o céu turvo neblina / Em pálido lençol.
Em vão! Sorris do mar iníqua ira; / A nuvem não te encobre; / Ri da inveja a virtude; ela transpira / Dos andrajos do pobre.
Soçobra o mar erguidos hemisférios, / Tomba o rijo penedo; / O anjo da destruição varre os impérios, / Mas o sol está quedo.
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