Opúsculos por Alexandre Herculano — Volume 6
Alexandre Herculano (1810–1877)
O começo — LISBOA · LISBOAVIUVA BERTRAND C. a SUCCESSORES CARVALHO C. a 73, Chiado, 75 M DCCC LXXXIV
Se passardes pelos olhos uma carta topográfica de Portugal, em cada província, em cada comarca, talvez em cada pequeno distrito, achareis escrito, ao lado de alguns desses sinais que marcam as povoações, a palavra Villa-nova : Villa-nova de Rei, de S. Cruz, de Gaya, de Cerveira;… que sei eu?―Villas-novas de todos os sobrenomes, e até villas-novas de ninguém e de nada; villas-novas espurias.
Villa-nova é o dom municipal, o dom vilão; porque, por extravagante antiphrase, villa-nova quase sempre indica um antigo burgo com suas rugas de velhice, com seu castelo desmoronado, com seus vestígios de templo ou de palácio da meia-edade. Villa-nova moderna, sem pedras amarelas, tombadas, ogivais, é cousa descomunal, [4] milagrosa, e ao réz do impossível. É que o passado, remoto, remotissimo, como o imaginardes, já foi presente, e então a vila que se alevantava ou no desvio, até aí inculto e intratável, ou sobre os vestígios de povoação deshabitada e destruída, era realmente nova ; mas os seus edificadores esqueciam-se, ao dar o nome à obra das próprias mãos, que eles passariam bem…
Alexandre Herculano (autor) morreu em 1877; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1948.