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A Arrábida

Alexandre Herculano (1810–1877)

Poesia14 min de leitura12 páginas

O começo

I Salve, ó vale do sul, saudoso e belo! / Salve, ó pátria da paz, deserto santo, / Onde não ruge a grande voz das turbas! / Solo sagrado a Deus, pudesse ao mundo / O poeta fugir, cingir-se ao ermo, / Qual ao freixo robusto a frágil hera, / E a romagem do túmulo cumprindo, / Só conhecer, ao despertar na morte, / Essa vida sem mal, sem dor, sem termo, / Que íntima voz contínuo nos promete / No trânsito chamado o viver do homem.

II Suspira o vento no álamo frondoso; / As aves soltam matutino canto; / Late o lebréu na encosta, e o mar sussurra / Dos alcantis na base carcomida: / Eis o ruído de ermo! Ao longe o negro, / Insondado oceano, e o céu cerúleo / Se abraçam no horizonte. Imensa imagem / Da eternidade e do infinito, salve!

III Oh, como surge majestosa e bela, / Com viço da criação, a natureza / No solitário vale! E o leve insecto / E a relva e os matos e a fragrância pura / Das boninas da encosta estão contando / Mil saudades de Deus, que os há lançado, / Com mão profusa, no regaço ameno / Da solidão, onde se esconde o justo.

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