De Jersey a Granville
Alexandre Herculano (1810–1877)
O começo
Abandonavamos, enfim, o solo de Inglaterra. Seria pela volta do meio dia quando saltamos no chasse-marée que devia conduzir-nos de Jersey a Saint-Maló, atravessando aquela estreita porção do canal que nos separava da França. Sentimentos encontrados eram nesse momento os meus. O sol resplandecia brilhante, e o ar estava puro e sereno: era um dia doutono, tão belo como o que mais o fosse em Portugal. De um lado alteava-se a ilha com os seus outeiros e vales, solo anfractuoso semelhante ao nosso, e a povoação com os seus edifícios cobertos de telha, que nos faziam esquecer aqueles horríveis tectos ingleses de lousa negra, especie de tabuletas do spleen , penduradas pelos bretões sobre as suas…
Per me si va nela cita dolente. /
Do outro lado estendia-se o mar, chão e espelhado, que se interpunha entre nós e a França; entre nós e esse país, que para a mocidade das nações ocidentais da Europa é como uma segunda pátria; porque lá está o centro das ideias que hoje agitam os espíritos, tanto no que respeita às questões sociais, como no que interessa à ciência e à literatura; porque lá vivem os escritores que melhor conhecemos; que, até, amâmos como se foram nossos: país, a cujos hábitos, tradições, sucessos e glorias nos têm associado os seus livros, sem o sentirmos, sem, talvez, o querermos. Ao approximarmo-nos da França o coração não bate violento, nem se derramam lagrimas, como ao avistar a terra em que nascemos;…
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