O Perigo Imediato
Rui Barbosa (?–1923)
O começo
Pois, senhores, deveras não sabíamos que nos nossos escritos se encerrasse a preconização da glória militar. Glória, glória militar! quem poderia imaginá-la num país que não dispõe sequer dos mais simples meios para a própria defesa? Glória quer dizer arrojo, quer dizer ambição, quer dizer resplendor, quer dizer superioridade, quer dizer força. E de todas essas qualidades a situação brasileira é a mais perfeita negativa. Se alguma coisa, a que se empreste esse fulgurante, pudéssemos almejar ao Brasil, pudéssemos almejar ao governo do Sr. Campos Sales, seria a de que se contentava aquele rei e aquele reino cantados por Béranger:
Il était un roi de Yvetot
Peu connu dans l’histoire,
Se levant tard, se couchant tôt,
Dormant fort bien SANS GLOIRE .
O mais a que, no país e na corte de Yvetot, se pode aspirar, é a ter as portas seguras, para se entregar a gente, ao menos, em sossego às funções domésticas, e dormir à vontade. A Imprensa, quanto à defesa nacional, não tem pedido mais. Que contemos com bons guardas à soalheira de casa, para não estremunhar a desoras com a entrada de visitas pelas janelas, era quanto impetrávamos, a bem desse descanso tão caroável à nossa sesta e ao nosso sono. Querem, porém, os nossos antagonistas que de tal não exista necessidade nenhuma. Em paragens, onde não há maraus e pilhantes, a polícia está feita pela mera pacatez dos vizinhos. E entre nacionalidades, que se respeitam, não há pilhantes, nem maraus.…
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