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Num Meio-Dia de Fim de Primavera

Alberto Caeiro

Poesia5 min de leitura4 páginas

O começo

Num meio-dia de fim de primavera / Tive um sonho como uma fotografia. / Vi Jesus Cristo descer à terra. / Veio pela encosta de um monte / Tornado outra vez menino, / A correr e a rolar-se pela erva / E a arrancar flores para as deitar fora / E a rir de modo a ouvir-se de longe.

Tinha fugido do céu. / Era nosso demais para fingir / De segunda pessoa da Trindade. / No céu era tudo falso, tudo em desacordo / Com flores e árvores e pedras. / No céu tinha que estar sempre sério / E de vez em quando de se tornar outra vez homem / E subir para a cruz, e estar sempre a morrer / Com uma coroa toda à roda de espinhos / E os pés espetados por um prego com cabeça, / E até com um trapo à roda da cintura / Como os pretos nas ilustrações. / Nem sequer o deixavam ter pai e mãe / Como as outras crianças. / O seu pai era duas pessoas… / Um velho chamado José, que era carpinteiro, / E que não era pai dele; / E o outro pai era uma pomba estúpida, / A única pomba feia do mundo /…

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