O Filósofo Platão
Alcântara Machado (?–1935)
O começo
Fechou a porta da rua. Deu dois passos. E se lembrou de que havia fechado com uma volta só. Voltou. Deu outra volta. Então se lembrou de que havia esquecido a carta de apresentação para o diretor do Serviço Sanitário de São Paulo. Deu uma volta na chave. Nada. É verdade: deu mais uma.
- Nhana! Nhana! Nhana!
Nhana apareceu sem meias no alto da escada.
- Estou vendo tudo.
- Ora vá amolar o boi! Que é que você quer?
- Na gaveta do criado-mudo tem uma carta. Dentro de um envelope da Câmara dos Deputados. Você me traga por favor. Não. Eu mesmo vou buscar. Prefiro.
- Como queira.
E foi buscar. Saiu do quarto e parou na sala de jantar.
- Ainda tem geléia ai, Nhana?
- No armário debaixo de uma folha de papel.
- Obrigado.
Escolheu cuidadosamente o cálice. Limpou a colherinha no lenço. Nhana ia passando com o ferro de passar. Mas não se conteve.
- Platão, Platão, você não vai falar com o homem, Platão?
- Calma. Muita calma. Glorinha entregou o ordenado?
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