A Insigne Cornélia
Alcântara Machado (?–1935)
O começo
O sol batia nas janelas. Ela abriu as janelas. O sol entrou.
- Nove horas já, Orozimbo! Quer o café?
- Que mania! Todos os dias você me pergunta. Quero, sim senhora!
Não disse palavra. Endireitou a oleogravura de Teresa do Menino Jesus (sempre torta) e seguiu para a cozinha. O café já estava pronto. Foi só encher a xícara, pegar o açúcar, pegar o pão, pegar a lata de manteiga, pôr tudo na bandeja. Mas antes deu uma espiada no quarto do Zizinho. Deu um suspiro. Fechou a porta à chave. Foi levar o café.
- E a Folha.?
- Acho que ainda não veio.
- Veio, sim senhora! Vá buscar. Você está farta de saber…
Para que ouvir o resto? Estava farta de saber. Trouxe a Folha. Voltou para a cozinha.
- Aurora! Ó Aurora!
Pensou: essa pretinha me deixa louca.
- Onde é que você se meteu, Aurora?
Pensou: só essa pretinha?
Começou a varrer a sala de jantar. E a resolver o caso da Finoca. O médico quer tentar de novo as injeções. Mas da outra vez deram tão mal resultado. Será que não prestavam? Farmácia de italiano não merece confiança. Massagem é melhor: se não faz bem mal não faz. Só se doer muito. Então não. Chega da coitadinha sofrer.
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