Amor e Sangue
Alcântara Machado (?–1935)
O começo
Sua impressão: a rua é que andava, não ele. Passou entre o verdureiro de grandes bigodes e a mulher de cabelo despenteado.
- Vá roubar no inferno, Seu Corrado!
Vá sofrer no inferno, Seu Nicolino! Foi o que ele ouviu de si mesmo.
- Pronto! Fica por quatrocentão.
- Mas é tomate podre, Seu Corrado!
Ia indo na manhã. A professora pública estranhou aquele ar tão triste. As bananas na porta da QUITANDA TRIPOLI ITALIANA eram de ouro por causa do sol. O Ford derrapou, maxixou, continuou bamboleando. E as chaminés das fábricas apitavam na Rua Brigadeiro Machado.
Não adiantava nada que o céu estivesse azul porque a alma de Nicolino estava negra.
- Ei, Nicolino! NICOLINO!
- Que é?
- Você está ficando surdo, rapaz! A Grazia passou agorinha mesmo.
- Des-gra-ça-da!
- Deixa de fita. Você joga amanhã contra o Esmeralda?
- Não sei ainda.
- Não sabe? Deixa de fita, rapaz! Você…
- Ciao.
- Veja lá, hein! Não vá tirar o corpo na hora. Você é a garantia da defesa.
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