O Alce
Humberto de Campos (?–1934)
O começo
Era nas margens do rio Cobar, ainda sem limo e sem nome, que se escancarava, dia e noite, naqueles tempos inocentes do mundo, a boca monstruosa da caverna. Aberta na rocha bruta pela força inconsciente das grandes águas primitivas, a enorme furna constituíra o refúgio seguro dos tímidos veados perseguidos, que ali iam repousar, assustados, contra a voracidade dos leões do Deserto. Um rebanho de cabras silvestres habitava-a, alarmando a ribanceira alta, quando o troglodita chegou, com a sua azagaia e a sua clava, disposto a ocupá-la. Os caprinos partiram em tumulto, pulando de rochedo em rochedo, estalando as unhas ásperas nas pedras escuras da margem, e o homem ficou só com as suas armas e…
Quatro luas depois, a caverna das margens do rio era um lar, semente de uma família, esboço indeciso de uma tribo. Viviam nela, em paz e em silêncio, Djeb, o caçador de uros; Elam, domesticador de abelhas selvagens; e Heva, companheira e escrava de Elam. Vagavam, estes últimos, quase perdidos, pela solidão daquelas florestas ocidentais, quando encontraram o primeiro, e passaram a caminhar juntos, solidários contra os perigos infinitos da selva. A caverna, descoberta por Djeb, serviu-lhes de abrigo. À noite, aceso o fogo na pedra porejante, a goela enorme iluminava-se e os ursos, os tigres, os auroques, os mamutes, os cervos, os leões, os elefantes, os próprios cavalos bravios, paravam…
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