
Flores do Campo
João de Deus (1830–1896)
O começo — A SULAMENSE
—Sou trigueira mas formosa, / Moças de Jerusalem! / Senão vede o pavilhão / Que arma em campo Salomão, / Se há coisa mais preciosa, / E por fora a cor que tem; / Vêde as barracas dos moiros, / Por dentro tantos thesoiros, / Por fora negras também.
Não vos dê pois isso pena, / Ter assim a cor morena: / Minha mãe mandou-me pôr, 234 / Por culpa de meus irmãos, / De guarda à vinha, o calor / Queimou-me o rosto e as mãos: / E eu, a vinha, é escusado / Dizer-vos que nem eu tinha / Senão agora o cuidado / De estar a guardar a vinha.
Ah! para que banda vás / Com o gado, meus amores! / E pela folga onde estás! / Bem vês os outros pastores, / E a gente não adivinha. / Eu não hei-de andar atrás / Desses rebanhos sozinha.
João de Deus (autor) morreu em 1896; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1967.