O Homem e o Cão
Guimarães Júnior (?–1898)
O começo — I
Quando Paulo Maurício bateu à porta de sua casa soavam piedosamente em todos os campanários as 12 pancadas de meia-noite. Uma chuvinha impertinente e fria açoitava a atmosfera e vinha colar à fronte magra do poeta os negros cabelos que a sombreavam.
A casa era na rua da Misericórdia; uma casa de fúnebre aparência e velha como as três virtudes teologais. Estava a rua silenciosa; a chuva enlameava as calçadas em cujo passeio, ao longe, ressoavam monótonos os passos de um sonolento policial.
O poeta mal comera durante o dia, e uma maldita febre — a febre da pobreza -, vós a conheceis, miseráveis! Fazia latejar-lhe o pulso ardente, roçando-lhe nos lábios pálidos a asa diabólica.
Dormia o Cérbero daquele inferno, à hora em que o esfaimado inquilino levantava a aldraba e propunha-se a safar-se da chuva cada vez mais perseguidora. Enquanto pela quarta vez o poeta batia à porta do seu tugúrio, alguma coisa foi-lhe de encontro às pernas e um hálito quente bafejou através das calças úmidas.
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