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A Alma do Outro Mundo

Guimarães Júnior (?–1898)

Contos1 h 50 de leitura93 páginas

O começo — I

Estamos no Jordão. O Jordão dista do Recife, capital de Pernambuco, quatro léguas, pouco mais ou menos meia hora de vagão… que não desencarrilhe antes de lá chegar; está visto.

É um lugarejo pobre e formoso como as feiticeiras matutas do norte, que fazem brilhar, através do tosco lenço, a alvura de um seio adorável, e metem em brutais tamancos um par de pés, dignos de herdar o sapatinho da Borralheira.

O nome não é propriamente do lugar: é do pequeno rio que o atravessa em parte, um rio cheio de sombras, quietação e aromas selvagens, como aquele de que o louro S. João tirou as gotas santas com que batizou o Divino Cordeiro.

As casas do Jordão são quase todas humildes, raquíticas, esboroadas; mas em todas elas a doce miséria espalha um sereno ar de meiguice e pureza, através do qual a indigência parece resplandecer melhor que o luxo nos salões da cidade opulenta.

Durante a tarde, as poucas famílias do lugar dirigem-se em graciosas turmas à beira do rio, e aí esperam os primeiros clarões da estrela, rindo, conversando, e, nas noites de lua, acordando o sonolento eco ao ruído dos pandeiros, das guitarras e das vozes felizes que se entrelaçam na pálida e cheirosa atmosfera!

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