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Contos para a Infância Escolhidos dos Melhores Autores por Guerra Junqueiro

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850–?)

Infantojuvenil4 h de leitura218 páginas

O começo — A mãe

Estava uma mãe muito aflita, sentada ao pé do berço do seu filho, com medo que lhe morresse. A criancinha pálida tinha os olhos fechados. Respírava com dificuldade, e às vezes tão profundamente, que parecia gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino moribundo.

Nisto bateram à porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado numa manta darrieiro. Era no inverno. Lá fora estava tudo coberto de neve e de gelo, e o vento cortava como uma navalha.

O pobre homem tremia de frio; a criança adormecêra por alguns instantes, e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho começou a embalar a criança, e a mãe, pegando numa cadeira, sentou-se ao lado dele. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada vez com mais dificuldade, pegou-lhe na mãozinha descarnada e disse para o velho:

--Oh! Nosso Senhor não m'o há de levar! não é verdade?-- [4] E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça de uma maneira estranha, em ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de cabeça; estava sem dormir havia três dias e três noites. Passou ligeiramente pelo sono, durante um minuto, e despertou sobressaltada a tremer de frio.

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (autor) morreu em 1923; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1994.

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