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O Melro (Fragmento)

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (1850–?)

Poesia5 min de leitura4 páginas

O começo — BERNARDO PINDELLA · O MELRO

O melro, eu conheci-o: / Era negro, vibrante, luzidio, / Madrugador, jovial; / Logo de manhã cedo / Começava a soltar dentre o arvoredo / Verdadeiras risadas de cristal. / E assim que o padre cura abria a porta / Que dá para o passal, / Repicando umas finas ironias, / O melro dentre a horta / Dizia-lhe: «Bons dias!» / E o velho padre cura / Não gostava daquelas cortesias.

O cura era um velhote conservado / Malicioso, alegre, prasenteiro; / Não tinha pombas brancas no telhado, / Nem rosas no canteiro: / Andava às lebres pelo monte, a pé, / Livre de rheumatismos, / Graças a Deos, e graças a Nóe. / O melro desprezava os exorcismos / Que o padre lhe dizia: / Cantava, assobiava alegremente; / Até que ultimamente / O velho disse um dia:

«Nada, já não tem jeito! este ladrão / Dá cabo dos trigaes! / Qual seria a rasão / Porque Deos fez os melros e os pardais?!»

E o melro no entretanto, / Honesto como um santo, / Mal vinha no oriente / A madrugada clara / Já ele andava jovial, inquieto, / Comendo alegremente, honradamente, / Todos os parasitas da seara / Desde a formiga ao mais pequeno insecto. / E apesar disto o rude proletário, / O bom trabalhador, / Nunca exigiu aumento de salario.

Abílio Manuel Guerra Junqueiro (autor) morreu em 1923; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1994.

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