Versos de Bulhão Pato
Raimundo António de Bulhão Pato (1829–1912)
O começo — A HELENA
Lembras-te, Helena, o dia em que deixamos / O teu saudoso vale, e lentamente / Pela elevada encosta caminhamos? / O sol do estio ardente, / Já não brilhava nos frondosos ramos / Do arvoredo virente.
Chegara o fim do outono: a natureza, / Sem ter os mimos da estação festiva, / Nem aquele esplendor e gentileza / Que tem na quadra estiva, / Na lânguida tristeza, / Na luz branda e serena / Daquele ameno dia, / Que imensa poesia, / E que saudade respirava, Helena!
Subindo pelo monte, / Chegámos ao casal onde habitava / A tua protegida, / Aquella pobre anciã que se agarrava / Aos restos desta vida! / Assim que te avistou, ergueu a fronte / Curvada ao peso de tão longa idade, / Sorrindo nesse instante / Com tal vida, que a luz da mocidade / Parecia alegrar o seu semblante!
Estendeste-lhe a mão, entre as mãos dela, / Grosseiras pelo habito constante / Do trabalho da terra, / Queimadas pelo vento sibilante, / E pelo sol da serra, / Produzia essa mão graciosa e bela, / Effeito semelhante / Ao que por entre o mato / Produziria a rosa de Benguela, / A flor mais alva e de mais fino trato!
Raimundo António de Bulhão Pato (autor) morreu em 1912; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1983.