Fé (Artigo)
Rui Barbosa (?–1923)
O começo
Nessa estupenda trilogia de Sienckiewickz, onde o romance, o poema, o drama se equilibram na região de Shakespeare, e parecem às vezes escritos com uma pena das suas asas, há um grande sulco divino, que se gravou para sempre em nosso espírito, extasiado naquelas páginas maravilhosas. Entre Ferro e Fogo, onde se principia a desdobrar o estofo magnífico da narrativa, e Pan Michael, que a encerra, estão os dois prodigiosos volumes do Dilúvio.
É verdadeiramente o flagelo bíblico sob um aspecto ainda mais tremendo que o dos livros sagrados. O oceano das invasões, sucessivas, simultâneas, rola as suas ondas sobre a mísera Polônia submergida. À inundação moscovita e à cossaca vem sobrepor-se a inundação sueca. Assoberbada por aquelas, entrega-se a nação a esta completamente. Perdidas as suas duas capitais, o inimigo facilmente subjuga o país todo, enquanto as vagas do naufrágio pavoroso, arremessando ao estrangeiro o soberano destronado, alagam impetuosamente a república de fronteira a fronteira. Acima do pélago sem bordas se apagou o último lume da esperança, e do fundo da voragem troveja o poder da conquista, como a voz dos…
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