O Fim dos Audazes
Rui Barbosa (?–1923)
O começo
Sem o senso moral, que Danton não tinha, a audácia é a alavanca das grandes aventuras do mal. Mas esse instrumento das façanhas da imoralidade, ou da crueza, tem o seu ponto necessário de apoio na fortuna. Em lhes falseando ela, os Arquimedes do crime político esmorecem, capitulam e sucumbem. Desde que a Convenção abdicou na Comissão de Salvação Pública, o Mirabeau do Terror, vendo fugir-lhe das mãos o cutelo da guilhotina, sente-se saciado, enjoado dos homens, saoul des hommes, vai espairecer no campo o seu abatimento, e, quando torna, vê perdido o seu jogo. Nêmesis principiava a fitá-lo.
Começam a ferver em torno dele as suspeitas onipotentes. A pretexto de vingá-lo, a língua farpada de Robespierre lhe instilara na ferida da calúnia o veneno mortal. “Danton! acusam-te de haver emigrado; propalam que estiveste na Suíça; que tua doença era fictícia, para encobrir ao povo a tua fuga; que tua ambição cogitava em seres regente sob Luís XVIII; que tudo, em certa época, estava aparelhado, para te proclamar; que eras o chefe da conspiração; que os nossos verdadeiros inimigos não eram, nem Pitt, nem Coburgo, nem a Inglaterra, nem a Áustria, nem a Prússia; que só tu o eras.”
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