Opúsculos por Alexandre Herculano — Volume 1
Alexandre Herculano (1810–1877)
O começo — I
O Espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze ressoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade.
E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhais de assassinos.
Povo!… breve soará a tua hora extrema: tu mesmo a assignalaste no decorrer dos tempos.
O anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolação, e tu danças e folgas ébrio das tuas esperanças.
Essa terra que pisas crês que é um solo remido por tuas mãos: repara porém; olha que é um sepulcro.
Amplo é o sepulcro de um povo: dentro em breve tu aí calarás para sempre.
Creste-te forte, porque sabes rugir como a pantera: mas somente Deus é grande.
Encheste o vaso das tuas iniquidades; ele trasbordou, e a terra ficou poluída.
Maldictos os nomes dos que acenderam o vulcão popular; nomes abomináveis perante o céu e a terra.
Portugal foi pesado na balança da eterna justiça, e a Providencia retirou a mão de cima dele.
Alexandre Herculano (autor) morreu em 1877; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1948.