A Senhora Viscondessa
S. de Magalhães Lima (1850–?)
O começo — Um baile
Temos baile em casa da sr.a viscondessa de B***.
À porta do palacete param trens sem conta. Descem os convivas, profusamente almiscarados.
No salão cruzam-se os pares: eles , fragrantes, como uma rosa de Bengalla; elas , voluptuosas e tépidas, como uma brisa do Oriente.
A sala é vasta, enorme, quadrangular. A cada canto uma mesa de mármore oleosa e de difícil lavôr. Do tecto dourado e semicircular pende um [8] lustre de sessenta lumes, adornado de flores artificiais e de vidrilhos verdes. A mobília, de um estofo azul e assetinado, rivalisa em simetria com os mais encantados jardins de Granada.
As janelas abertas atraiçoam os segredos dos namorados. Como relâmpagos, refletem-se na praça as vertigens da walsa.
Por sobre a sombra do arvoredo ondeia a luz fantasticamente. A cada um destes banhos despertam as aves nos seus ninhos. E a lua, a doce companheira da tristeza, vai iluminando o espaço, o mar e as solidões.
S. de Magalhães (Sebastião de Magalhães) Lima (autor) morreu em 1928; Lei 9.610/98 art. 41 (70 anos a partir de 1º/1 do ano seguinte) ⇒ livre em 1999.