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O Bispo Negro

Alexandre Herculano (1810–1877)

Religião e mito16 min de leitura14 páginas

O começo — I

Houve tempo em que a sé abandonada de Coimbra era formosa; houve tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos anos, eram ainda pálidas, como as margens areentas do Mondego. Então o luar, batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavissima, mais rica de saudade que os próprios raios daquele planeta guardador dos segredos de tantas almas, que creem existir nele, e só nele, uma inteligência que as perceba.

Então aquelas ameias e torres não haviam sido tocadas das mãos de homens, desde que os seus edificadores as tinham colocado sobre as alturas; e todavia já então ninguém sabia se esses edificadores eram da nobre raça goda, se da dos nobres conquistadores árabes.

Mas, quer filha dos valentes do norte, quer dos pugnacissimos sarracenos, ela era formosa na sua singella grandeza entre as outras sés das Hespanhas. Aí sucedeu o que ora ouvireis contar.

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